Diversidade genética em populações de Astyanax scabripinnis (Jenys, 1842) coletados em riachos de diferentes altitudes da Região de Campos de Jordão, SP

Santos, Marcelo
Departamento de Genética e Evolução, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
outubro, 2000
 

Resumo

Com a finalidade de avaliar a diversidade genética em populações de Astyanax scabripinnis, foram coletados indivíduos de 7 localidades diferentes, da região de Campos do Jordão - São Paulo (Brasil). Essas localidades estão situadas em 3 riachos que drenam para a bacia do Rio Sapucaí (Córrego das Pedras - 1720 metros; Ribeirão do Casquilho - 1700 metros e Ribeirão das Perdizes - 1770 metros) e em dois riachos que drenam para a bacia do Paraíba do Sul (Ribeirão Pequeno - 800 metros e Ribeirão Grande - 700, 1800 e 1920 metros). Dos 16 sistemas enzimáticos analisados, 06 mostraram-se codificados por locos duplicados, perfazendo um total de 24 locos. O padrão eletroforética da enzima málica (ME) sugere um padrão de expressão unidirecionalmente divergente e os da isomerase fosfoglicônica (GPI), isocitrato desidrogenase (IDHP), lactato desidrogenase (LDH), malato desidrogenase (MDH) e creatina quinase (CK) padrões de expressão bidirecionalmente divergentes. Foram detectados 07 locos polimórficos (GPI-A*, GPI-B*, IDHP-A*, IDHP-B*, LDH-A*, sMDH-A* e sMDH-B*) com valores médios de números de alelo por loco (A) igual a 1.57 e do número de locos polimórficos (P) igual a 22.3%. Em todas as populações em que foram analisados, os locos da IDHP-B* e LDH-A* não se mostraram em equilíbrio de Hardy-Weinberg. Juntamente aos alelos comuns às diferentes populações foram detectados 07 alelos populações-específicos, 02 alelos bacia-específicos e 02 alelos altitude-adaptativos. A heterozigosidade média observada para as 07 amostras das populações de A. scabripinnis aqui analisadas (Ho = 0.07) mostrou-se um pouco mais alta que as obtidas para outros peixes. Os valores médios obtidos para a estatística F foram positivos para todas as populações e os valores para o coeficiente F de Wright (Fis = 0.291; Fit = 0.434 e Fst = 0.201) mostram uma deficiência de homozigotos e um grau de diferenciação entre essas, que a hipótese de uma única população panmítica pode ser rejeitada. O fluxo gênico aqui detectado (Nm = 0.99) mostrou-se baixo suficiente para manter a heterozigosidade nas freqüências alélicas encontradas, e assim, permitir diferenciação por deriva genética. A presença de padrões de isolamento geográfico também corroboram os baixos níveis de fluxo gênico estimado para A. scabripinnis da região estudada.

O dendograma construído a partir da distância genética de NEI e da distância genética de Nei corrigida para pequenas amostras mostram dois clusters, um agrupando seis populações de localidades coletadas nas duas bacias e o segundo formado por uma única localidade da bacia do rio Sapucaí (Ribeirão do Casquilho – 1700 metros). Uma explicação plausível para esse padrão, seria a redistribuição de formas devido a fenômenos geomorfológicos que ocorreram na área de estudo.

Em 648 indivíduos coletados em dois anos consecutivos, em 05 localidades diferentes, foram detectados somente 03 indivíduos heterozigotos para os alelos *100 e *112 da LDH. A freqüência do alelo *112 aumenta com a altitude de coleta dos exemplares. A afinidade do produto do alelo *112 ao substrato, semelhante ao produto do loco LDH-B* em outros peixes, se mostru duas vezes maior que o do *100. Valores de Vmax aparente variaram de 2.5 (isoforma A112) à 4.35 x 10-6 moles x litro-1 min-1 (isoforma A100).

Os resultados obtidos para cada loco LDH-A* sugerem a presença não de uma, mas de duas populações em cada uma dessas localidades estudadas: uma delas, segregando o alelo *100 e a outra o alelo *112 da LDH. Neste caso, além da barreira constituída pela diferença de altitude em que se encontram, as populações de A. scabripinnis que habitam essa região, teríamos também uma barreira gênica isolando duas populações, que poderiam ser ginogenéticas em uma mesma localidade. Os dados aqui obtidos são compatíveis com a hipótese de que existe um isolamento entre populações das diferentes localidades estudadas, sendo possível, que processos de especiação estejam ocorrendo separando populações de diferentes localidades, como também, dividindo populações de uma mesma localidade.